sábado, 14 de abril de 2007

O espelho de Kafka


kaf.ki.a.no adj
Relativo a Franz Kafka, escritor nascido na Tchecoslováquia (1883-1924), que usava a língua alemã. sm Admirador ou estudioso de Kafka.

Quando a obra de um escritor causa muita influência entre seus leitores, ela geralmente se transforma em adjetivo. Mais ainda: determinados autores têm seus estilos e idéias tão disseminados que, mesmo as pessoas que não os leram, aprendem que certas ocasiões da vida representam a obra daquele escritor. O termo kafkiano é um dos maiores exemplos. Verdadeiro lugar-comum usado sempre quando aparecem situações absurdas no cotidiano humano.


Os contos e romances de Kafka contam histórias de pessoas oprimidas pela família, pelo Estado, pela justiça ou burocracia, enfim, todo os mecanismos sociais que alienam o homem e atacam sua individualidade com o intuito de manter normas e condutas preestabelecidas. Essas formas de coerção nos escritos de Kafka apresentam-se nas formas mais bizarras possíveis, de modo que à primeira vista parecem completamente inverossímeis. Mas então por que muitas vezes nos sentimos tão próximos de seus personagens e conflitos?


O mundo contraditório e traumático que Kafka descrevia em seus livros era seu próprio mundo. Com a leitura das cartas a seus parentes, amigos e mulheres, e sobretudo lendo seu diário, descobre-se que a literatura de Kafka era um reflexo quase que completo de sua vida. Primeiro a difícil relação com seu pai, Hermann Kafka, comerciante de Praga avesso às artes, descrito como autoritário, explosivo e mesmo agressivo. Em 1919 Kafka enviou uma carta a seu pai, onde expôs toda a dor dessa relação. Mais tarde ela foi transformada em livro, "Carta ao Pai". Um fragmento revelador fala da submissão do jovem Kafka: "Quando começava a fazer algo que não era do teu agrado, e me ameaçavas com o fracasso, o respeito por tua opinião era tão grande que implicava, embora fosse mais tarde, que o fracasso era irremediável. Perdi a confiança em minha ação."


Kafka dizia abertamente que queria sair dos domínios de seu pai, e para isso acabou optando por uma profissão que não era de seu agrado. Formou-se em Direito e trabalhou por 14 anos em uma companhia de seguros contra acidentes do trabalho. Ocupação para ele alienante e burocrática, da qual se queixou em seu diário no ano de 1913: "Meu emprego é insuportável porque se opõe ao meu único desejo e minha única vocação, a literatura. Como eu não sou outra coisa que literatura, e não posso e nem quero ser outra coisa, meu emprego nunca conseguirá apoderar-se de mim, ainda que possa a chegar a destroçar-me totalmente. Não falta muito para isso."


Desse modo as histórias fantásticas de Kafka, com inocentes sendo condenados pela justiça, homens se transformando em insetos, leis estúpidas e sem sentido, órgãos do Estado reprimindo pessoas abertamente e naturalmente etc. são metáforas de sua vida. Para Kafka escrever, como ele dizia, era um exercício de conscientização de sua situação. Uma espécie de fuga da realidade opressora, um próprio mergulho no subjetivismo. Entretanto os escritos kafkianos desenvolvem uma estrutura mítica onde, partindo de seu individualismo, se chega ao universalismo. Isto é, Kafka representando sua própria vida em sua literatura também mostra a vida das sociedades ocidentais deste século. É uma própria síntese de um universo repressor e absurdo.


Kafka passou a maior parte de sua vida na Tchecolosváquia, então pertencente ao Império Austro-Húngaro, mas o que ele escreveu não dizia respeito apenas a seu lugar e época. O simbolismo de suas obras diz respeito a qualquer opressão da consciência humana em qualquer sociedade reificada ou coisificada que seja dominada por mitos do poder, seja em regimes capitalistas ou socialistas.


A espiral burocrática

"Alguém devia ter caluniado a Josef K., pois que sem este tivesse feito nada de mal foi detido uma certa manhã". Assim começa o que para muitos é o melhor romance de Franz Kafka, "O Processo". O autor não chegou a terminá-lo, foi publicado postumamente por seu amigo Max Brod em 1925. Como a maior parte das obras que escreveu, Kafka desejava que ela fosse destruída.


"O Processo" conta a história de um procurador de um banco de Praga, Josef K., subitamente exposto a um processo judicial sem aparentes motivos. Com efeito, o protagonista nunca chega a saber do que está sendo acusado, pois a justiça não lhe permite isso. Nesse teatro do absurdo o herói não poderia deixar de ser imperfeito e tolo: Josef K. aceita a incoerência desse caso e toma para si as formas que a justiça usa em seu dia-a-dia - a burocracia e a corrupção.


É importante perceber que o principal motivo dessa submissão a um processo ilógico vem da própria existência alienada de Josef K. Ele é descrito como um solitário homem de negócios entregue a seu trabalho no banco, onde se sente seguro, pois conhece todas as estruturas de seu funcionamento: "Todo o momento que passava fora do escritório lhe causava enormes inquietações; já não podia empregar seu tempo de trabalho de um modo tão útil quanto antes; passava muitas horas apenas fingindo que trabalhava; sua inquietação era ainda maior quando não se encontrava no Banco."


Como vários estudos marxistas apontam, o homem oprimido e alienado, seja pelo seu trabalho ou pelo Estado, perde a noção do real e passa a aceitar sua exploração. Primeiramente, Josef K. tinha uma existência centrada em seu trabalho repetitivo e formal, o que lhe acarretava uma postura não menos fria e sem sentido. Depois, quando seu processo e sua posterior burocracia judicial o atingem, ele não tem consciência do absurdo de sua nova situação, já que se encontra alienado. Não contesta sua situação, pelo contrário, procura aprender como funcionam os mecanismos da justiça, não para destruí-la, mas para se adaptar a ela.


Nessa jornada pela justiça, Kafka descreve literalmente seus corredores sinistros. Buscando informações sobre seu processo, Josef K. entra em prédios do Poder Judiciário que são verdadeiros labirintos escuros e desorganizados, onde ninguém sabe lhe informar nada com segurança. O ambiente desses lugares chega mesmo a causar vertigens e desmaios no personagem principal. Esse ponto do romance, muito similar à realidade, é exemplo do funcionamento dos órgãos burocráticos: o uso do segredo ou mistério. Esse caso retrata a burocracia judicial que, na maioria das vezes, fecha a justiça em si mesma, e não permite que ninguém saiba como ela funciona.


O caso de Josef K. é um exagero desse caráter opressor da justiça, mas não deixa de ter semelhança com os trâmites usados pela justiça real. No romance, Josef K. descobre que a hierarquia da justiça é composta por graus infinitos, pessoas nunca vistas, completamente inacessíveis ao público. Tudo muito parecido com certos magistrados da vida real, postos em verdadeiros pedestais quase inalcançáveis.


Josef K. nunca chega a ultrapassar a barreira da burocracia judicial. Seus mistérios e segredos são a forma de ela manter seu grande poder. Para isso ela serve-se da mudez de seus funcionários, das suas considerações secretas, da linguagem hermética de seus códigos e de seus procedimentos ardilosos.


Por último ressalta-se no romance a característica corrupta que uma justiça decadente atinge. O pouco que Josef K. chega a descobrir é que ela recompensa os homens que conseguem ter boas relações com seus escalões acessíveis e mais nobres. Primeiro seu advogado lhe confessa isso e depois essa idéia é reforçada pela estranha figura de um pintor retratista de juízes, Titorelli: "Por certo não li em nenhuma lei, apesar de que naturalmente tem que estar estabelecido ali que o inocente tenha de ser absolvido e, imediatamente não se estabelece nela que se possa influir sobre juízes por meio de relações pessoais. Agora bem; precisamente me inteirei de que ocorre todo o contrário, porque o certo é que não tenho conhecimento de nenhuma absolvição real, mas sim de muitos casos de influências pessoais."


Franz Kafka morreu tuberculoso em junho de 1924 num sanatório em Kierling, perto de Viena. Seus contos, romances, cartas e diários permanecem como retratos da triste condição humana, presa em sua própria contradição.